Falo sobre mim
Não por egocentrismo ou falta de imaginação.
Falo sobre mim e para mim, na esperança de algo mudar.
Indigno-me com o conformismo;
O meu conformismo e o conformismo dos outros.
Deixo aqui o meu apelo:
Fora com a vulgaridade e essa imbecil expressão de conformismo.
Fora com o torpor preguiçoso das almas e com a tranquila inactividade dos espíritos.
Fora com essa renuncia que transpira dos teus braços caídos, das tuas mãos dormentes e do susto dos teus olhos baços.
Fora com a indecisão em que tropeçam.
Porquê sufocar esse grito que nasce em ti ?
Deixa-o agigantar-se até rasgar as paredes escuras do teu medo.
Porquê apagar essa lava que te incendeia o sangue?
Deixa-a alastrar e fundir-se.
Deixa-a fazer do teu sangue um tormento, para que não possas mais dormir à sombra do teu egoísmo.
Não temas, vai.
Entra no fragor da batalha. Abre caminho por entre mortos e vivos.
Despoja-te dessa máscara burlesca com que pretendes esconder a tua verdade.
Leva como únicas armas, as mãos cheias de amor.
Tens sede de justiça ?
Então porque esperas ?
O mundo precisa de ti.
A vida só será vida quando souberes aprender-lhe o sentido e a construíres
com o teu suor.
Sê canto de vitória, bandeira de liberdade na tua luta contigo mesmo e com os outros.
Sê flor na água estagnada do pântano. Sê estrela na noite escura de ideais.
Claro que todos nós recuamos, sim.
Mas apenas para irmos mais além e para de um salto galgarmos o abismo das nossas fraquezas, a fronteira das nossas limitações.
Doem-nos os estilhaços da luta que travamos. Ardem-nos os olhos da poeira e lágrimas. Amarga-nos o sabor da possível derrota.
Dói-nos o escuro da possível escuridão.
Ah! mas antes isso! Antes a alegria ensanguentada da subida ao tédio da renúncia.
Antes isso do que ficar sempre cá embaixo, a olhar para cima.
Mesmo declarando tudo isto, no gume do silêncio, eu respiro a amargura da renúncia. apertam-me os braços da solidão.
Engulo um sufoco de gritos que se estilhaçam no vácuo.
Rebentam-me os olhos de lágrimas.
Os lábios forçam o sorriso confiante de quem acredita. O cérebro maquina explicações para essa absurda imagem de angústia e de revolta.
Sei que um dia, cansada de toda esta luta que descrevi, hei-de ser feliz.
Vou querer risos de crianças e pingos do ar.
Vou querer ramalhetes de estrelas desfolhando-se pelo ar.
Pedações de sol caindo do céu, em jorros de luz.
Vou querer bailados fantásticos de cores.
Vou querer cânticos suaves, como o murmúrio das fontes e o mistério rumoroso do mar.
Vou querer vida e o amor numa promessa de realidade !

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